sexta-feira, 13 de julho de 2007

É tudo tão claro



É tudo tão claro. Como tudo é tão claro!
Recursos da melancolia humana.
Indivisíveis pensamentos que nos despem,
E o bastante sofrimento no lembrar,
São como chuva fina no espelho
Do lamento insistente do ego.
Renego. E tudo é tão claro.
Queremos a cura,o bálsamo de Gileade.
As ruas, as árvores no centro da avenida;
As feiras, também os sábados.
De alegres que são as paisagens juninas,
Cheguemos-nos ao nosso alvo.
Somos tão miseráveis! E não somos.
Representar é substituir o real.
Denomine-se embaixador!
Tudo é tão “santo” nos altares empoeirados.
A minha poesia é cúmplice, conivente
E o meu Cristo, que é real, é só pretexto.
Deixe-me ir a ver os pássaros
Talvez seja o melhor dos cultos:
Simples, solene e sem nenhum pretexto;
A ver com os meus olhos os jogos organizados in nomine Dei.
Fui crucificado e estou morto
E isso é tão claro como a aurora.
A morte que eu tive é mais vida
Do que a vida que ainda me resta...
Manjares do caos me oferecem e me cospem.
E tudo é tão claro como o sol do meio-dia.
Multiplica-se os credos à procura de um só Deus
Mas o único Deus não se encaixa em um só credo.
Crepúsculo ancoradouro dos homens,
A cruz inimiga dos prazeres humanos.
E tudo é tão claro...


1º/05/2004

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